UM
Uma gata assassina e dois irmãos invadem minha casa
Percy: Certo. Usar um gravador não é lá o meu forte, mas digamos que é melhor usar, já que posso não poder contar esta história de novo.
Annabeth: Por favor Percy, não seja dramático.
Rachel: Exatamente. Eu é que devia ser dramática, sou o oráculo!
Annabeth: Francamente...
Percy: Vão me deixar contar a história ou não? Obrigado. Bem, agora que as damas aqui resolveram parar de criticar minha dramaticidade, acho que podemos começar com Moutauk. É, definitivamente Moutauk.
Thalia: Ande logo Percy, não me faça acertar essa flecha no seu pescoço.
Percy: Sinceramente, não sei se corro mais risco aqui dentro ou lá fora. Hã... pelo olhar delas... é, é aqui dentro mesmo. Afinal, posso matar monstros, mas garotas? Elas provavelmente me matariam antes que eu pudesse pensar. Melhor apenas contar a história.
***
Estava eu, mamãe, Paul e Sophia, minha futura irmã daqui a um mês.
Surpreso? É, eu também ficaria.
Deixe-me retroceder um pouco. Depois de todo aquele negócio de que o mundo iria acabar e que apenas eu iria poder salvar o Olimpo e tudo mais, minha vida voltou ao normal. Tão normal quanto a vida de um meio-sangue poderia ser.
Lembra-se da minha professora, a senhora Dodds? Gostaria de esquecê-la, mas parece que ela desenvolveu uma enorme afeição por querer me matar.
Já terminei o colégio na Goode High School e agora tento me preparar para entrar na faculdade. Gostaria muito que existisse uma faculdade sobre “como se esquivar de um monstro de olhos multicoloridos de três braços e dois narizes fumegantes” ou coisas do tipo, mas mamãe insiste para que eu siga a carreira de arqueologista. Como se eu estivesse entusiasmado em saber como a civilização pré-colonial de não sei quem fez sobre não sei o que enquanto os monstros – inclusive alguns que eu nem sabia que existiam – brotam de todos os lugares para uma partida de pega-pega do mal.
Queria estar preocupado com estudos, como Rachel Elizabeth Dare, mas não consigo tirar essa sensação de que a cada segundo posso ser decapitado por um Minotauro ou então fuzilado por uma dracanae. Sei lá, acho que a sensação que eu sentia antes por ser o menino da grande profecia ainda não quis sair de mim.
Rachel: Não estou tão preocupada com os estudos. Não como Annabeth.
Annabeth: Eu não me preocupo com os estudos Rachel, sou inteligente, o que me força...
Thalia: A ser uma irritante sabe-tudo. Annabeth, você não era assim quando a conheci.
Annabeth: Eu tinha um machado nas mãos.
Percy: Não dá para pararem de fazer ameaças de morte umas para as outras o tempo todo? Já não basta esse aperto aqui nesse trem?
Annabeth, Thalia, Rachel: Vou matá-lo se não calar essa boca e continuar a história!
Percy: É com essa frase tão carinhosa e gentil, acho melhor continuar.
Tudo estava indo bem. Mamãe e Paul haviam comprado uma casa com quintal grande. Mamãe já era bem famosa por seus romances e Paul agora resolvera escrever um livro sobre mitologia grega. Vá entender.
Então estávamos lá, deitados na areia macia de Moutauk e olhando as ondas do mar. Elas estavam revoltadas e eu sorri ao pensar no por quê. Poseidon, meu pai, poderia estar vendo mamãe e Paul nesse exato momento e poderia estar com ciúmes. Paul havia notado isso também.
- Percy – Disse ele fazendo um gesto para chamar minha atenção – por que não dá um mergulho para ver seu pai? Então você poderia dizer o quanto sou seu fã e que ele terá o papel principal em meu livro.
Sorri para Paul e apontei para as ondas.
- Não creio que ele esteja muito feliz. Acho melhor vocês dois entrarem, sabe? Eu aprendi que, quando os deuses ficam zangados, coisas explodem. Então...
Paul olhou receoso para o mar e cutucou minha mãe delicadamente no braço. Mamãe piscou algumas vezes e colocou a mão sobre o ventre, onde estaria, segundo o médico, a cabeça de minha irmã.
- Que há com a maré? Quando eu me deitei aqui ela estava tão mansinha.
- Maré pode sentir ciúmes? – Perguntou Paul. Ele já se encontrava dentro da casa.
Mamãe e eu trocamos um breve olhar e sorrimos. Enquanto mamãe seguia com dificuldade para o lado de Paul, eu ainda pude ouvir:
- Marés não, mas o dono delas? Esse sim.
Olhei para cima e sorri. As estrelas brilhavam com intensidade e pela primeira vez senti que Zeus não tinha raiva de mim.
Eu iria amanhã para o acampamento e veria Annabeth. Tudo estava perfeito e em paz e eu comecei a acreditar que poderia ser assim para sempre.
Como eu estava errado.
Como eu sempre estou errado, sinceramente, acho melhor parar de falar isso, assim, quem sabe, alguma vez eu possa estar certo.
Rezei em silêncio ao meu pai e me levantei, já era hora de ir para casa.
Uma gata de pelo amarelo e preto, olhos amarelos e incrivelmente orelhuda apareceu em minha frente. Fiz tudo o que podia para lhe tirar do caminho, mas então dei de ombros e permiti que ela se acomodasse na soleira da porta. Ela não pareceu muito satisfeita, mas ronronou.
- Mãe? – Chamei.
Mamãe grunhiu em resposta. Ela se encontrava sentada no sofá e fazia uma careta horrorosa para sua barriga arredondada.
- Sua irmã esta me matando. Você não era assim, e olha que é semideus.
Sorri para mamãe, mas senti um arrepio sinistro na espinha. Não deixei que mamãe percebesse isso e apenas fiz um gesto de desdém, seria melhor que ela não se preocupasse com nada, não nessa fase tão maravilhosa de sua vida. Acariciei os cabelos de minha mãe e troquei um aceno de cabeça com meu padrasto. Ele olhava para a janela com um olhar assustado.
Soltei um riso baixo e segui para meu quarto.
Meu quarto não era um quarto. Era basicamente uma cama de madeira e uma escrivaninha. Uma mesa encostada na janela e um abajur que lembravam as ondas do mar. Não que eu precisasse disso.
Eu estava admirando a foto de Annabeth em minha carteira quando ouvi o berro de minha mãe vindo da sala. Sai correndo em disparada e a encontrei apertando a barriga com força em demasia.
- Mãe? Mãe!
Paul dançava uma espécie de dança grega no mesmo lugar. Revirei meus olhos e peguei o celular de minha mãe. O passei para as mãos tremulas de Paul.
- Por que você não liga? Vou vomitar. – Disse Paul.
- Já temos um problema um tanto grande para que eu fique me preocupando com qualquer monstro que Hades queira mandar. Ligue logo!
Mamãe urrou de dor. Seus olhos brilhavam.
- Estou tão feliz! Acho que vou acabar chorando de felici...
Nesse momento uma mulher esguia em trajes de leopardo pulou pela janela, quebrando-a. Reconheci os olhos amarelos e arfei assustado.
- Não chore! Não ainda.
Eu ainda encarava o rosto da bela mulher.
- Vo-você era u-uma ga-ga-ta. Espere, você ainda é uma gata. – Acrescentei com um sorriso.
Mães são estranhas. Minha mãe estava ardendo de dor, mas mesmo assim, sabe-se lá como, ela havia conseguido bater em minha cabeça. E com força.
Logo depois uma garota de cabelos cor de caramelo e olhos azuis e um garoto afroamericano adentraram no quarto segundos depois de explodirem a porta.
Virei-me para minha mãe e ergui uma sobrancelha.
- Você por acaso convidou a família e não me disse?
Paul havia desmaiado e mamãe me olhou com um brilho estranho nos olhos, o brilho me dizia claramente que ela poderia matar qualquer um naquele momento. Voltei-me para os outros dois adolescentes.
- Quem, pelos deuses, são vocês três?
A garota disse algo em uma língua estranha e me fitou. Seus olhos eram de um azul vivido e intenso.
- Cale a boca e nos deixe fazer o que viemos fazer.
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